Congresso do PS: O diabo está nos detalhes…


por José Manuel Fernandes a Domingo, 10 de Abril de 2011 às 20:50

…e é nos detalhes que se revela a verdadeira natureza de uma liderança. E o Congresso do PS não foi apenas um longo comício destinado a lançar a campanha eleitoral. Tão pouco foi um momento de consagração de uma liderança.

‘Está comigo todo o Partido Socialista? Vocês estão comigo??’

O Congresso do PS foi uma suprema encenação do poder de José Sócrates sob formas que raiaram o culto da personalidade e procuraram substituir a unidade pelo unanimismo.

Depois do combate do Chefe.

O primeiro momento de desvario populista surgiu logo na abertura. Foi quando Sócrates encerrou o seu discurso com um apelo próprio de um líder autoritário: ‘Está comigo todo o Partido Socialista? Vocês estão comigo??’ O PS que presente naquela sala gritou que estava.

Um partido treinado em aclamar o líder

Antes a máquina de imagem e propaganda tratara de garantir que nenhum fotógrafo se aproximaria do “líder”. Os repórteres de imagem foram mantidos à distância e, quem quisesse uma imagem mais próxima teria de recorrer ao fotógrafo oficial. Assim fez o Diário de Notícias, onde as fotos apareciam assinadas com a sigla GPM – Gabinete do primeiro-ministro. De resto nunca foi permitido que os jornalistas se chegassem a José Sócrates, que não respondeu a uma só pergunta. Em especial à que todos queriam fazer: como é que, tendo prometido nunca governar com o FMI, quer agora governar com o FMI?

Abram alas, estão a chegar as bandeiras portuguesas.

No longo sábado de todas as intervenções o fiel Almeida Santos tratou de as alinhar de forma a fazer desfilar toda a nomenclatura e a deixar para a noite, uma altura em que a sala estava vazia e as televisões já não faziam directos, as únicas intervenções realmente críticas: as de Ana Gomes e mais dois militantes pouco conhecidos. Quem tivesse dúvidas perdeu-as: o palco da Exponor esteve sempre reservado, às horas nobres, para os profissionais dos comícios. Momento igualmente marcante do culto de Sócrates foi a passagem de um filme sobre as lideranças do PS: todos os anteriores secretários-gerais (Soares, Constâncio, Sampaio, Guterres, Ferro) apareceram em imagens a preto e branco, Sócrates foi mostrado a cores. As câmaras oficiais do PS focaram então o rosto do “líder” na esperança de descortinarem uma lágrima furtiva…

Um certo registo de far-west…

No domingo o condicionamento à liberdade de movimentos da imprensa – que nunca pode entrar no recinto das sessões – passou por obrigar os repórteres a recolherem os depoimentos dos representantes dos partidos da oposição no meio da confusão dos delegados que abandonavam o congresso, com evidente prejuízo para a eficácia das suas mensagens. Mais: o tom belicista, rufia mesmo, dos discursos dos dois dias de congresso acabaram por provocar o embaraço de, contra todas as tradições de civilidade, muitos delegados terem recebido os representantes do PSD com vaias.

No parque automóvel não falta um Rolls Royce

A cereja em cima do bolo chegou na sessão de encerramento, quando foram distribuídas bandeiras de Portugal pelos presentes, bandeiras suficientes para que nem se notassem as do PS. Foi uma encenação em que o socialismo se rendeu ao nacionalismo saloio, tudo num truque patrioteiro que faz lembrar, como a retórica abertura de sexta-feira à noite, outros tempos e outros regimes.

Um discurso final tão igual nas fórmulas de sempre que no café da autoestrada ninguém o estava a ouvir…

Estes detalhes dizem mais sobre o tipo de exercício que teve por palco a Exponor do que todos os discursos. Até porque estes se resumiram a uma repetição sem fim do mesmo estribilho: “A culpa da crise é do PSD!” .

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3 thoughts on “Congresso do PS: O diabo está nos detalhes…”

  1. Seremos um País de atrasados mentais?
    Como é possível ter um um governo, um líder, tão mau sem escrupulos e dono da mais pura e delirante demagogia.
    ´Vil e triste esta situação.

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